Inteligência artificial já economiza tempo de 6 em cada 10 trabalhadores brasileiros, mostra pesquisa

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
7 Min de leitura

Levantamento global da Ipsos revela que brasileiros estão mais otimistas com a IA do que americanos e europeus, mas a confiança na tecnologia começou a recuar.

A inteligência artificial deixou de ser uma novidade distante para se tornar parte da rotina de trabalho de boa parte dos brasileiros. Um novo levantamento internacional mostra que a maioria já sente, na prática, o efeito da tecnologia no dia a dia profissional, economizando tempo em tarefas que antes consumiam horas. Ao mesmo tempo, o entusiasmo não é unânime nem cresce de forma constante: a confiança de que a IA traz mais benefícios do que riscos caiu ligeiramente em relação ao ano anterior. Essa combinação gera uma dúvida comum entre quem acompanha o avanço da tecnologia: a IA está realmente cumprindo a promessa de facilitar a vida das pessoas, ou o otimismo inicial já começou a dar lugar à cautela? Os números mais recentes ajudam a entender essa relação ainda em construção entre os brasileiros e a inteligência artificial.

O que a pesquisa Ipsos revela sobre o uso diário da IA

O Monitor de Inteligência Artificial 2026, da Ipsos, mediu como a população de 32 países está incorporando a tecnologia ao trabalho. Entre os respondentes brasileiros, 6 em cada 10 trabalhadores, ou 59%, afirmam que as ferramentas de IA economizaram seu tempo no trabalho no último ano. O resultado mostra que o ganho de eficiência, antes tratado como promessa, já é percebido como realidade prática por boa parte da força de trabalho do país. Ipsos

A expectativa para os próximos anos também é de avanço. Além disso, 60% dos brasileiros acreditam que a IA vai melhorar o tempo que levam para realizar suas tarefas nos próximos três a cinco anos, e 65% acreditam que a tecnologia vai mudar a forma como realizam seu trabalho atual nos próximos cinco anos. Esses números indicam que a IA não é mais vista apenas como uma ferramenta pontual de produtividade, mas como algo que vai redesenhar funções e rotinas inteiras dentro das empresas brasileiras nos próximos anos. Ipsos

Por que o otimismo brasileiro é maior, mas também mais cauteloso

Apesar do uso já consolidado, a confiança geral na tecnologia não segue numa linha de crescimento constante. Em 17 dos 32 países pesquisados neste ano, as pessoas estão menos propensas a acreditar que a IA traz mais benefícios do que desvantagens, e o Brasil está nesse grupo: 56% concordam com essa afirmação, uma queda de 2 pontos percentuais em relação a 2025. Ainda assim, esse percentual brasileiro está longe de ser o mais baixo do levantamento. Ipsos

A comparação internacional surpreende justamente por colocar o Brasil em posição mais otimista que países tecnologicamente mais avançados. O dado de 56% no Brasil contrasta com países economicamente mais desenvolvidos como Estados Unidos, com 38%, Alemanha, com 37%, e Canadá, com 34%. Ou seja, mesmo com a leve queda na confiança, o brasileiro ainda enxerga a IA de forma mais favorável do que o americano ou o europeu, o que ajuda a explicar por que a adoção da tecnologia no trabalho segue avançando no país, mesmo em um cenário de cautela crescente em outras partes do mundo. A pesquisa foi realizada pela Ipsos entre 20 de março e 3 de abril de 2026, com uma amostra de aproximadamente mil brasileiros, parte de um total de 23.532 adultos entrevistados nos 32 países. IpsosIpsos

Como o Brasil está se preparando para essa nova fase

Enquanto o uso da IA avança entre trabalhadores e empresas, o debate sobre regras para a tecnologia também ganha corpo no Congresso. O Brasil precisa decidir se será apenas consumidor de tecnologia ou se vai ocupar elos mais relevantes da cadeia de valor da inteligência artificial, tema central de um painel realizado no início de junho durante o AI Summit Exame, em São Paulo. Parte dessa discussão passa diretamente pela regulação: o PL 2.338/2023, que regulamenta o desenvolvimento, o fomento e o uso responsável de sistemas de IA no Brasil, já foi aprovado no Senado e enviado à Câmara, onde tramita em comissão especial. ExameExame

O país também já conta com iniciativas próprias de desenvolvimento tecnológico, e não depende só de ferramentas estrangeiras. Entre os exemplos citados no debate estão o GAIA, modelo de linguagem aberto voltado ao português brasileiro, desenvolvido em parceria com o Google, e o Lumina, projeto de IA genômica, ambos ligados ao Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás. Esses projetos mostram que, ao lado da regulação ainda em construção, o Brasil já tenta construir capacidade técnica própria para não depender exclusivamente de tecnologia desenvolvida fora do país. Exame

Os números da Ipsos mostram um retrato ambíguo, mas não contraditório: a inteligência artificial já economiza tempo de uma parcela relevante dos trabalhadores brasileiros, e a expectativa é de que esse efeito se intensifique nos próximos anos. Ao mesmo tempo, a confiança de que a tecnologia traz mais vantagens do que riscos recuou ligeiramente, sinal de que o otimismo inicial está sendo substituído por uma visão mais realista sobre limites e desafios. Com a regulação ainda em tramitação na Câmara e projetos nacionais de IA ganhando espaço, a forma como o Brasil vai equilibrar adoção tecnológica e segurança deve continuar sendo um dos temas mais relevantes da pauta de tecnologia nos próximos meses.

Fontes consultadas:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *