Brasil prepara dois supercomputadores de IA por mais de R$ 2 bilhões: o que isso muda para empresas e trabalhadores

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
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Investimento em computação de alto desempenho pode ampliar a capacidade brasileira de desenvolver inteligência artificial e acelerar uma nova fase da economia digital.

O Brasil decidiu ampliar sua aposta em inteligência artificial com a previsão de adquirir dois supercomputadores de alto desempenho, em um investimento superior a R$ 2 bilhões, em vez de concentrar o projeto em apenas uma máquina. A mudança, divulgada nos últimos dias, coloca infraestrutura de computação no centro da estratégia brasileira para reduzir a dependência tecnológica externa e desenvolver sistemas de IA adaptados às necessidades do país. Um dos equipamentos deverá ter tecnologia norte-americana e outro contará com tecnologia chinesa, enquanto o governo avalia instalar as estruturas em regiões diferentes do território nacional. (Folha de S.Paulo) O movimento ganha importância porque o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028, abrangendo infraestrutura, formação profissional, serviços públicos, inovação empresarial e governança. (Serviços e Informações do Brasil) Para o brasileiro, a pergunta que surge é direta: como uma infraestrutura que parece restrita a pesquisadores pode mudar empregos, empresas, serviços e oportunidades nos próximos anos?

Por que o Brasil quer dois supercomputadores para inteligência artificial

Um supercomputador voltado à inteligência artificial não é simplesmente uma versão muito mais rápida de um computador doméstico. Essas máquinas são projetadas para executar quantidades gigantescas de cálculos simultaneamente, utilizando processadores especializados, memória de alta velocidade e estruturas capazes de trabalhar com enormes volumes de dados. Isso é fundamental para treinar modelos de IA, uma etapa que exige muito mais capacidade computacional do que simplesmente utilizar um chatbot ou uma ferramenta pronta. O PBIA reconhece essa necessidade ao colocar infraestrutura e desenvolvimento de IA entre seus eixos estruturantes, dentro de um programa que prevê R$ 23,03 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028. (Serviços e Informações do Brasil)

A decisão de adquirir duas máquinas, segundo informações divulgadas nesta semana, também tem um componente estratégico. Em vez de depender de um único fornecedor ou de uma única origem tecnológica, o Brasil pretende trabalhar com equipamentos associados aos Estados Unidos e à China, países que atualmente estão no centro da disputa mundial por chips, computação avançada e inteligência artificial. A ideia está relacionada ao conceito de soberania digital: ter capacidade própria para processar dados, desenvolver modelos e realizar pesquisas sem depender integralmente da infraestrutura de empresas estrangeiras. O governo também considera distribuir os equipamentos regionalmente, o que poderia aproximar a computação avançada de universidades, centros de pesquisa e empresas fora do eixo tradicional do Sudeste. (Folha de S.Paulo)

Essa infraestrutura pode parecer distante da rotina de uma família, mas seus efeitos potenciais são bastante concretos. Um país com maior capacidade de computação consegue desenvolver modelos de linguagem, sistemas de previsão climática, ferramentas para agricultura, soluções para saúde e aplicações de automação industrial com maior participação de pesquisadores nacionais. Também pode criar condições para que universidades e startups brasileiras testem tecnologias que seriam caras ou inviáveis quando dependem exclusivamente de serviços computacionais contratados no exterior. O próprio MCTI afirma que o PBIA busca não apenas utilizar tecnologias estrangeiras, mas desenvolver soluções no país e adaptá-las às características sociais, culturais e econômicas brasileiras. (Serviços e Informações do Brasil)

Como o investimento em IA pode chegar às empresas e ao mercado de trabalho

O impacto econômico mais importante provavelmente não estará apenas nos supercomputadores, mas no ecossistema que pode surgir ao redor deles. Uma infraestrutura avançada permite que pesquisadores desenvolvam modelos, empresas testem aplicações e startups transformem pesquisas em produtos. Isso pode beneficiar áreas como indústria, agronegócio, logística, finanças, saúde e serviços, especialmente quando a inteligência artificial for utilizada para automatizar tarefas repetitivas, analisar grandes bases de dados ou melhorar previsões. No desenho oficial do PBIA, a maior parcela dos investimentos estruturantes, R$ 13,79 bilhões, está destinada à inovação empresarial, mostrando que a estratégia não foi concebida apenas como política científica. (Serviços e Informações do Brasil)

Para pequenas e médias empresas, entretanto, o benefício não será automático. Uma empresa não passa a ter acesso a inteligência artificial avançada simplesmente porque o país comprou uma máquina potente. Será necessário criar mecanismos para conectar infraestrutura, universidades, startups, centros de pesquisa e negócios, além de formar profissionais capazes de transformar capacidade computacional em soluções comercialmente úteis. Esse ponto é especialmente importante porque o Brasil pode ganhar infraestrutura de ponta e, ainda assim, enfrentar escassez de especialistas em dados, engenharia de software, segurança cibernética, ciência de dados e gestão de projetos de IA. O PBIA prevê justamente recursos para difusão, formação e capacitação, estimados em R$ 1,15 bilhão no período do plano. (Serviços e Informações do Brasil)

O mercado de trabalho também tende a passar por uma mudança mais profunda. A inteligência artificial pode substituir determinadas tarefas, mas também cria demanda por profissionais capazes de supervisionar sistemas, interpretar resultados, integrar ferramentas aos processos empresariais e avaliar riscos. Isso significa que a discussão sobre IA não deve ser reduzida à pergunta sobre quais profissões desaparecerão, mas também incluir quais competências ganharão valor. Para trabalhadores brasileiros, a capacidade de utilizar IA de maneira produtiva pode se tornar tão importante quanto conhecer uma ferramenta específica, porque os sistemas continuarão evoluindo rapidamente.

Há ainda uma oportunidade relevante para empresas brasileiras que desenvolvem tecnologia. O BNDES e a Finep já estruturaram uma chamada pública para selecionar o gestor de um Fundo de Investimento em Participações destinado a startups intensivas em inteligência artificial, dentro do PBIA. A iniciativa mostra que a estratégia pública não está limitada à compra de infraestrutura: também existe uma tentativa de criar capital para empresas que tenham IA como elemento central de seus modelos de negócio. (BNDES) Se essa combinação entre computação, financiamento, pesquisa e formação funcionar, o país poderá ampliar a quantidade de empresas capazes de transformar pesquisa tecnológica em produtos e serviços.

O que pode mudar na vida do brasileiro nos próximos anos

A principal expectativa é que a infraestrutura de IA seja convertida em serviços capazes de resolver problemas brasileiros de maneira mais eficiente. Sistemas treinados ou adaptados às características do país podem trabalhar melhor com o português brasileiro, particularidades regionais, dados públicos nacionais e demandas específicas de setores como agricultura, saúde e administração pública. O PBIA prevê aplicações para melhorar serviços públicos e também estabelece iniciativas relacionadas à inovação empresarial, indicando que a inteligência artificial deverá ser tratada como infraestrutura econômica, e não apenas como uma novidade tecnológica. (Serviços e Informações do Brasil)

Essa transformação, porém, traz desafios que vão além da capacidade de processamento. Quanto mais sistemas de IA forem utilizados em serviços públicos, empresas e decisões econômicas, maior será a importância da segurança dos dados, da transparência dos modelos e da definição de responsabilidades quando uma ferramenta errar. O próprio governo reconhece a necessidade de governança e regulação como parte da estratégia nacional, enquanto o debate brasileiro sobre as regras para inteligência artificial continua em andamento. (Serviços e Informações do Brasil) Para o cidadão, isso significa que o avanço tecnológico precisará ser acompanhado por mecanismos que protejam privacidade, segurança e direitos.

Também existe o risco de o investimento produzir poucos resultados caso não seja acompanhado de acesso. Uma máquina extremamente poderosa concentrada em poucos centros de pesquisa pode gerar avanços científicos, mas terá impacto social limitado se universidades, startups, empresas menores e profissionais de outras regiões não conseguirem participar desse ecossistema. Por isso, a possibilidade de instalação dos equipamentos em regiões diferentes do país chama atenção: a distribuição da infraestrutura pode ajudar a reduzir desigualdades tecnológicas, desde que venha acompanhada de conectividade, formação e financiamento para projetos. (Folha de S.Paulo)

Nos próximos anos, portanto, o sucesso da estratégia brasileira será medido menos pelo tamanho ou pela velocidade dos supercomputadores e mais pelo que o país conseguir construir ao redor deles. Se infraestrutura, capital, universidades e empresas forem conectados, a inteligência artificial poderá abrir espaço para novos negócios, empregos especializados e soluções nacionais. O Brasil já reservou R$ 23 bilhões para essa transformação até 2028, segundo o plano oficial, e agora entra em uma etapa em que será necessário transformar investimento em resultados concretos. (Serviços e Informações do Brasil) Para quem vive e trabalha no país, a grande mudança pode não aparecer como uma máquina gigantesca, mas nos serviços, produtos e oportunidades criados a partir dela.

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