54% dos brasileiros que usam inteligência artificial já compartilham sentimentos com as ferramentas, revela pesquisa

Marcel Montaire
Por Marcel Montaire
9 Min de leitura

Levantamento do Cetic.br mostra que a IA deixou de ser apenas ferramenta de trabalho e passou a ocupar espaço na vida emocional dos brasileiros.

A inteligência artificial generativa está ganhando um espaço inesperado na rotina dos brasileiros: o de interlocutora para sentimentos, dúvidas pessoais e momentos de vulnerabilidade. Uma pesquisa divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) mostra que 54% dos usuários de IA generativa afirmam compartilhar sentimentos e emoções com essas ferramentas. O dado aparece ao lado de outros comportamentos que ajudam a explicar uma transformação na relação entre pessoas e tecnologia: 52% também fornecem informações relacionadas à saúde, como sintomas e exames, enquanto 50% compartilham fotos próprias ou de pessoas conhecidas.

O levantamento chama atenção porque revela que a pergunta sobre o uso da IA já não é apenas “para que as pessoas utilizam a tecnologia?”. A questão passa a ser também “o que elas estão contando para uma ferramenta digital?”. Em uma sociedade cada vez mais conectada, essa mudança envolve privacidade, confiança, solidão, busca por orientação e a maneira como os brasileiros estão incorporando sistemas de inteligência artificial à própria vida.

Por que os brasileiros estão contando sentimentos para a inteligência artificial?

O crescimento desse comportamento pode ser entendido a partir da facilidade de acesso e da disponibilidade permanente das ferramentas. Diferentemente de uma conversa convencional, a IA pode ser consultada a qualquer hora, sem necessidade de marcar um encontro ou esperar que outra pessoa esteja disponível. Para alguém que precisa organizar pensamentos, escrever uma mensagem difícil, desabafar sobre uma situação cotidiana ou simplesmente colocar em palavras uma emoção confusa, a tecnologia pode funcionar como um primeiro espaço de expressão. A pesquisa do Cetic.br confirma que esse uso já tem dimensão relevante: entre as informações compartilhadas pelos usuários de IA generativa, sentimentos e emoções aparecem em terceiro lugar, atrás apenas de temas de trabalho ou estudo, citados por 73%, e de preferências e gostos pessoais, mencionados por 58%.

Esse comportamento também revela uma transformação cultural importante. Durante décadas, ferramentas digitais foram associadas principalmente à produtividade, comunicação e entretenimento, mas a inteligência artificial começa a ocupar uma área mais íntima da experiência humana. A própria pesquisa registra que as plataformas já são utilizadas para aconselhamento, suporte emocional e companhia, indicando que algumas pessoas passaram a enxergá-las não apenas como instrumentos, mas como interlocutoras. Isso não significa que a tecnologia tenha substituído relações humanas, nem que uma conversa com IA seja equivalente ao acompanhamento de um profissional ou ao apoio de familiares e amigos. O dado, porém, mostra que existe uma nova forma de interação social acontecendo diante das telas, especialmente quando alguém procura um ambiente considerado acessível e menos constrangedor para falar sobre aquilo que sente.

O que acontece com os dados pessoais compartilhados com a IA?

A intimidade dessa relação cria uma preocupação que o próprio levantamento ajuda a dimensionar. Entre os usuários de inteligência artificial generativa, 66% afirmam estar preocupados ou muito preocupados com o uso de seus dados pessoais pelas empresas responsáveis pelas ferramentas. O índice chega a 72% entre pessoas com nível mais alto de escolaridade, mostrando que ter consciência dos riscos não significa necessariamente abandonar o uso da tecnologia. Na prática, os brasileiros parecem estar diante de uma contradição cada vez mais comum: ao mesmo tempo em que reconhecem os benefícios da IA, continuam fornecendo informações que podem revelar aspectos bastante particulares de suas vidas.

Os números ajudam a entender a dimensão dessa exposição. Além dos sentimentos, 52% dos usuários pesquisados disseram compartilhar dados de saúde, enquanto 41% mencionaram informações sobre finanças pessoais e 37% forneceram dados pessoais como nome, endereço, data de nascimento ou CPF. A diferença entre as categorias não significa que os dados menos citados sejam pouco importantes, mas evidencia que as pessoas podem estar mais dispostas a revelar determinados aspectos de sua vida quando percebem uma utilidade imediata na conversa. Para o usuário, contar uma preocupação, um sintoma ou uma situação familiar pode parecer diferente de preencher um cadastro, embora todas essas informações façam parte de sua esfera pessoal. Por isso, a nova relação com a IA exige uma espécie de educação digital baseada não apenas em saber utilizar a ferramenta, mas também em reconhecer quais informações devem permanecer fora dela.

Como usar inteligência artificial sem transformar a ferramenta em confidente de tudo?

Uma mudança simples de comportamento pode reduzir riscos sem impedir o uso da inteligência artificial. Em vez de inserir nomes completos, endereços, documentos, números de telefone, informações bancárias ou outros dados que identifiquem diretamente uma pessoa, o usuário pode descrever uma situação de maneira genérica. O mesmo cuidado vale para conversas sobre saúde: a IA pode ajudar a organizar dúvidas e explicar conceitos gerais, mas informações clínicas extremamente detalhadas devem ser tratadas com cautela. Quando a intenção é conversar sobre sentimentos, também é possível retirar elementos que permitam identificar o usuário ou terceiros, preservando a utilidade da interação sem transformar cada conversa em um registro excessivamente detalhado da vida pessoal.

O desafio, entretanto, não pode ser colocado somente sobre os ombros de quem utiliza a tecnologia. A coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil, Renata Mielli, destacou que empresas e organizações públicas precisam adotar práticas de governança, transparência e segurança capazes de garantir o uso responsável das informações. Essa responsabilidade compartilhada é especialmente importante porque a popularização da IA acontece em ritmo acelerado, enquanto muitas pessoas ainda estão aprendendo como funcionam suas políticas de privacidade e tratamento de dados. A própria pesquisa do Cetic.br, apoiada pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados, procura acompanhar justamente esse cenário e seus impactos sobre indivíduos, empresas e instituições brasileiras.

A questão central, portanto, não é simplesmente decidir se o brasileiro deve ou não conversar com uma inteligência artificial. A tecnologia já faz parte da vida cotidiana e tende a ganhar ainda mais espaço, inclusive em situações pessoais. O ponto é compreender que uma ferramenta que responde de maneira natural pode criar uma sensação de proximidade maior do que aquela que existe efetivamente entre usuário e sistema. A conversa pode parecer privada, acolhedora e individual, mas isso não elimina a necessidade de atenção às informações compartilhadas.

Para a sociedade brasileira, o fenômeno revela algo maior: a tecnologia está entrando em territórios tradicionalmente ocupados pelas relações humanas. A IA pode ajudar alguém a organizar pensamentos, encontrar palavras ou compreender melhor uma situação, mas não deve ser tratada automaticamente como substituta de vínculos sociais, profissionais especializados ou redes de apoio. À medida que essas ferramentas se tornam mais presentes, saber conversar com elas também significa saber estabelecer limites. A privacidade passa a fazer parte da própria alfabetização digital, e preservar aquilo que é íntimo pode ser tão importante quanto aprender a aproveitar os recursos oferecidos pela inteligência artificial.

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