BCP não é DRP: A confusão que compromete planos de continuidade de negócios

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
5 Min de leitura

Perguntar a diferentes executivos de uma mesma empresa o que é um plano de continuidade de negócios costuma produzir respostas surpreendentemente distintas, muitas delas confundindo o conceito com o plano de recuperação de desastres, documento tecnicamente relacionado, mas com escopo e objetivo bem diferentes. Rolando Bonaccorsi, executivo de operações e delivery em tecnologia, observa que essa confusão terminológica esconde uma lacuna prática maior: empresas frequentemente têm um documento sem ter o outro.

O plano de recuperação de desastres, conhecido como DRP, foca especificamente na restauração de sistemas de tecnologia após um evento disruptivo. O plano de continuidade de negócios, o BCP, tem escopo mais amplo, cobrindo como a empresa inteira continua operando, incluindo processos manuais, comunicação com clientes e decisões de negócio, mesmo quando parte da tecnologia ainda está indisponível.

Ter apenas o DRP não é suficiente?

Uma empresa pode ter um DRP excelente, capaz de restaurar sistemas críticos em poucas horas, e ainda assim enfrentar uma crise de negócio porque ninguém definiu como equipes de atendimento deveriam se comunicar com clientes durante a janela de indisponibilidade, ou como decisões comerciais urgentes seriam tomadas sem acesso a sistemas normalmente utilizados para esse fim.

Nesse panorama, Rolando Bonaccorsi informa que restaurar tecnologia rapidamente resolve metade do problema; a outra metade é manter a operação de negócio funcionando, ainda que de forma degradada, enquanto essa restauração acontece, algo que exige planejamento que vai muito além da infraestrutura técnica.

Processos manuais, como rede de segurança esquecida

Empresas altamente digitalizadas frequentemente perdem a capacidade de operar processos essenciais de forma manual, já que sistemas automatizaram completamente atividades que antes tinham alternativa não digital disponível em caso de indisponibilidade tecnológica prolongada.

Ao analisar esse ponto, Rolando Bonaccorsi nota que documentar processos manuais alternativos, mesmo que menos eficientes, para funções verdadeiramente críticas do negócio, garante capacidade mínima de operação em cenários onde a tecnologia simplesmente não está disponível, independentemente da causa específica da indisponibilidade.

Comunicação com stakeholders durante a crise

Um plano de continuidade bem estruturado define antecipadamente quem comunica o quê, para quem e através de qual canal durante uma crise, evitando o improviso que costuma gerar mensagens contraditórias, informações incompletas e danos reputacionais que se somam ao prejuízo operacional já causado pelo próprio incidente.

Como diretor de operações da Vert Analytics, Rolando Bonaccorsi enxerga isso da seguinte forma: a ausência de um protocolo claro de comunicação transforma qualquer incidente técnico em crise de confiança, já que clientes e parceiros toleram muito melhor uma indisponibilidade bem comunicada do que um silêncio prolongado seguido de explicações confusas e tardias.

Testando o plano além do exercício de mesa

Muitos planos de continuidade nunca saem do papel; na realidade, são revisados uma vez por ano em reunião de comitê e arquivados logo em seguida, sem qualquer simulação que mostre se a empresa realmente conseguiria executar o que está escrito no momento em que um incidente de verdade acontecer.

Rolando Bonaccorsi é enfático nesse ponto: plano que nunca foi testado na prática não passa de suposição bem redigida. Simulações periódicas, ainda que cubram apenas parte do cenário, expõem obstáculos que nenhuma leitura de documento seria capaz de antecipar sozinha, antes que um incidente real faça esse trabalho da forma mais cara possível.

Sendo assim, tratar continuidade de negócios como sinônimo de recuperação de desastres técnicos deixa a empresa desprotegida justamente onde clientes e receita mais sentem o impacto: a capacidade de seguir operando, mesmo que de forma reduzida, enquanto os sistemas ainda estão sendo restaurados. Um DRP bem construído resolve parte do problema, mas sozinho não é suficiente.

As empresas que enxergam os dois planos como peças complementares, testadas periodicamente e conectadas entre si, constroem uma resiliência que vai além da infraestrutura técnica: protegem também a operação de negócio que depende dela para continuar funcionando diante de qualquer imprevisto.

Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *