“Geração sanduíche” cresce no Brasil e expõe o peso invisível de cuidar de filhos e pais idosos ao mesmo tempo

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
7 Min de leitura

Envelhecimento da população e famílias cada vez menores aumentam a sobrecarga de quem cuida de duas gerações simultaneamente, mostram estudos recentes.

Cuidar dos filhos enquanto também se cuida dos pais idosos deixou de ser exceção na vida de milhões de brasileiros e se tornou rotina para uma parcela crescente da população adulta. O fenômeno tem nome na sociologia, a chamada “geração sanduíche”, e vem ganhando visibilidade conforme o Brasil envelhece e as famílias se tornam menores. Para quem vive essa realidade, a sensação costuma ser de estar sempre devendo atenção a alguém, seja ao filho que precisa de ajuda com a escola, seja ao pai ou à mãe que já não consegue cuidar de si sem apoio. A pergunta que fica é direta: por que esse fenômeno está se intensificando justamente agora, e quem realmente carrega esse peso dentro das famílias brasileiras? Dados recentes de institutos de pesquisa e órgãos oficiais ajudam a entender as causas e as consequências dessa sobrecarga silenciosa.

O que é a geração sanduíche e por que ela está crescendo

O termo não é novo, mas voltou a ganhar espaço no debate público por causa das transformações demográficas do país. Segundo a psicóloga Letícia Figueiredo, o termo foi cunhado nos estudos das ciências sociais e das humanidades por volta de 1980 e representa a ideia de pessoas que ficam espremidas entre duas frentes de cuidado, a geração mais jovem e a mais velha da família, geralmente pais, avós e idosos de um lado, e filhos e sobrinhos do outro. Agência Brasil

O motivo principal para esse crescimento é estrutural, ligado diretamente ao envelhecimento da população brasileira. Nos últimos dez anos, o número de pessoas com 60 anos ou mais cresceu 56% e alcançou 32,1 milhões de brasileiros, o que corresponde a 15,8% da população, segundo dados do IBGE, com projeção de que, até 2030, o grupo de idosos ultrapasse o de crianças e adolescentes de até 14 anos. Ao mesmo tempo, as famílias diminuíram de tamanho, o que significa menos parentes disponíveis para dividir as tarefas de cuidado. Esse cruzamento entre mais idosos para cuidar e menos pessoas disponíveis para cuidar é o que está, na prática, tornando a geração sanduíche cada vez mais comum em lares de todas as regiões do país. Terra

O peso do cuidado recai, sobretudo, sobre as mulheres

Os dados mostram que esse fenômeno não afeta homens e mulheres da mesma forma. Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, principalmente filhas, cônjuges e netas, com média de idade de 48 anos, um fenômeno que se repete em outros países, mas que no Brasil tem forte cunho cultural. Entre as participantes da pesquisa, a maioria identificada como filhas das pessoas cuidadas representa a maior parte dos casos. Na relação de parentesco das participantes com a pessoa cuidada, a maioria são filhas, com 68% dos casos, seguidas de esposas, com 21%, e netas e irmãs, juntas somando 5%. Agência BrasilAgência Brasil

Essa divisão desigual de responsabilidades tem reflexo direto no tempo livre das mulheres. No Brasil, segundo o IBGE, a maior parte da geração sanduíche é formada por mulheres, que dedicam, em média, 10,4 horas por semana a mais do que os homens para tarefas da casa e cuidados com outras pessoas, sem receber remuneração alguma por isso. Esse número ajuda a explicar por que, mesmo quando o cuidado é dividido entre vários membros da família, ainda costuma sobrar mais sobre as mulheres do que sobre os homens, o que limita oportunidades de trabalho, estudo e descanso ao longo da vida adulta. Instituto da Longevidade

Os efeitos na saúde e no orçamento das famílias

A sobrecarga de cuidar de duas gerações ao mesmo tempo deixa marcas que vão além do cansaço cotidiano. Um levantamento do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz apontou que 71,4% dos cuidadores relataram sobrecarga, e 45% apresentaram sintomas de ansiedade ou depressão relacionados à rotina de assistência contínua a familiares idosos, quadro descrito na literatura médica como burnout do cuidador. O impacto financeiro também é significativo para essas famílias. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada indicam que famílias com idosos dependentes têm despesas 34% maiores em comparação a lares sem pessoas em condição de dependência. TerraTerra

Esse cenário reforça a importância de políticas públicas voltadas a apoiar quem cuida, e não apenas quem é cuidado. Programas de assistência domiciliar, ampliação de centros-dia para idosos e maior flexibilidade de jornada para cuidadores familiares aparecem entre as medidas discutidas por especialistas como formas de reduzir essa sobrecarga. Sem esse tipo de apoio estrutural, a tendência é que o peso continue concentrado dentro de casa, recaindo principalmente sobre as mulheres da família, justamente em um momento em que o número de idosos no país segue crescendo de forma acelerada.

A geração sanduíche deixou de ser um fenômeno restrito a poucos lares e se tornou um retrato cada vez mais comum da família brasileira contemporânea. O envelhecimento da população, combinado a famílias menores e à divisão desigual de tarefas entre homens e mulheres, criou um cenário em que cuidar de duas gerações simultaneamente já não é exceção. Os números de sobrecarga emocional e de gastos mais altos mostram que esse não é apenas um desafio pessoal, mas uma questão que exige resposta também das políticas públicas. Reconhecer esse trabalho de cuidado, hoje praticamente invisível, é o primeiro passo para aliviar o peso que recai sobre milhões de brasileiros todos os dias.

Fontes consultadas:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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