Novos dados do IBGE mostram onde o Brasil ainda precisa avançar na inclusão de pessoas com deficiência

Marcel Montaire
Por Marcel Montaire
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Levantamento divulgado em setembro reúne dados sobre educação, trabalho, renda, moradia e participação social e revela desigualdades que afetam milhões de brasileiros.

A inclusão de pessoas com deficiência voltou ao centro do debate sobre a realidade brasileira após a divulgação, em 18 de setembro, da segunda edição do estudo Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A publicação reúne informações do Censo Demográfico 2022 e de outras bases oficiais para observar como esse grupo vive, estuda, trabalha, se desloca e participa da sociedade.

O levantamento chama atenção porque amplia a discussão para além do acesso a serviços de saúde. Educação, renda, emprego, moradia, transporte, participação política e composição familiar também fazem parte das condições que determinam a autonomia e a participação social. A dúvida que os novos números ajudam a responder é direta: como vivem hoje as pessoas com deficiência no Brasil e quais barreiras ainda aparecem no cotidiano? Os dados mostram avanços em algumas áreas, mas também desigualdades que permanecem visíveis entre pessoas com e sem deficiência.

Educação ainda revela uma diferença importante entre brasileiros

Um dos pontos que mais chamam atenção nos dados recentes é a desigualdade educacional. Segundo informações do Censo 2022 reunidas pelo IBGE, a taxa de analfabetismo entre pessoas com deficiência de 15 a 29 anos era de 12,2%, enquanto entre jovens sem deficiência ficava em 1%. O dado é particularmente relevante porque reduz a possibilidade de explicar a diferença apenas pela idade: mesmo entre uma geração mais jovem, a distância permanece. A pesquisadora do IBGE Luanda Botelho destacou que a desigualdade não pode ser atribuída somente à maior concentração de pessoas com deficiência entre grupos mais velhos.

O cenário também aparece quando se observa a trajetória educacional completa. Dados do IBGE mostram que 63,1% das pessoas com deficiência de 25 anos ou mais não tinham instrução ou não haviam concluído o ensino fundamental, enquanto entre as pessoas sem deficiência o percentual era de 32,3%. No ensino superior, a diferença também permanece: 7,4% das pessoas com deficiência haviam concluído esse nível de ensino, contra 19,5% entre as pessoas sem deficiência. Esses números ajudam a mostrar que inclusão educacional não significa apenas permitir a matrícula, mas garantir condições para que o estudante consiga permanecer, aprender e avançar ao longo da vida escolar.

O próprio IBGE explica que a nova publicação utiliza informações do Censo Demográfico 2022, da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, da MUNIC, dos censos educacionais e de dados eleitorais, entre outras fontes. Isso permite observar a deficiência a partir de diferentes dimensões, em vez de tratá-la como uma questão isolada.

Trabalho e renda mostram outro desafio para a inclusão

A desigualdade também aparece de forma clara no mercado de trabalho. Dados divulgados a partir do Censo 2022 mostram que o trabalhador com deficiência recebia, em média, R$ 2.053 por mês, enquanto o rendimento médio de trabalhadores sem deficiência era de R$ 2.890. A diferença significa que o rendimento médio das pessoas com deficiência correspondia a cerca de 70% daquele registrado entre pessoas sem deficiência. Segundo o IBGE, a diferença aparecia nos diferentes grupos de atividades econômicas analisados.

O tipo de ocupação também ajuda a compreender essa diferença. Conforme a análise divulgada pelo IBGE, trabalhadores com deficiência estavam mais concentrados em atividades que apresentavam remunerações menores, entre elas serviços domésticos, agropecuária e alojamento e alimentação. Isso mostra por que olhar apenas para a existência de emprego não é suficiente para medir inclusão: qualidade da ocupação, remuneração, estabilidade e possibilidade de crescimento profissional também fazem parte do cenário.

A participação econômica, portanto, está ligada a outras barreiras existentes na sociedade. A própria série histórica do IBGE já havia identificado diferenças importantes entre pessoas com e sem deficiência em participação no mercado de trabalho, formalização e rendimento. Na pesquisa de 2019, por exemplo, a taxa de participação das pessoas com deficiência era de 28,3%, contra 66,3% entre aquelas sem deficiência, enquanto a formalização alcançava 34,3% e 50,9%, respectivamente. Esses números são de uma pesquisa anterior e não devem ser confundidos com os resultados mais recentes do Censo 2022, mas ajudam a mostrar que a desigualdade no trabalho é um fenômeno acompanhado pelo instituto há anos.

Por que acessibilidade envolve muito mais do que rampas?

Quando se fala em inclusão, a imagem mais comum costuma ser a de uma rampa ou de um espaço adaptado. A acessibilidade, porém, envolve uma rede muito maior de condições: transporte, calçadas, escolas, locais de trabalho, moradia, comunicação e acesso aos serviços públicos. O novo estudo do IBGE foi estruturado justamente para observar essas diferentes dimensões e oferece informações sobre deslocamento, moradia, participação e direitos.

Essa abordagem é importante porque uma barreira pode aparecer em diferentes momentos do cotidiano. Uma pessoa pode ter acesso a uma vaga de emprego, por exemplo, mas enfrentar dificuldades para chegar ao local de trabalho; pode estar matriculada em uma instituição de ensino, mas encontrar obstáculos físicos ou comunicacionais que dificultem sua permanência. Por isso, os dados precisam ser lidos de maneira integrada, considerando a interação entre características individuais e as condições oferecidas pelos ambientes. O próprio IBGE utiliza uma definição baseada na legislação brasileira e identifica, no Censo 2022, pessoas que apresentam muita dificuldade ou não conseguem realizar determinadas funções, como enxergar, ouvir, andar, manipular objetos ou realizar atividades relacionadas à cognição e comunicação.

Outro aspecto importante é a participação social. O estudo reúne informações sobre cargos eletivos e de gestão, além de dados sobre educação, trabalho, renda, transporte, moradia e vida familiar. Isso permite observar não apenas quantas pessoas com deficiência existem no país, mas também em que medida elas conseguem ocupar diferentes espaços da sociedade. A publicação foi concebida pelo IBGE como uma fonte para pesquisas e planejamento de políticas e ações, tanto no setor público quanto em outras áreas.

Os dados divulgados em setembro ajudam, portanto, a transformar uma discussão muitas vezes abstrata em situações concretas. Eles mostram que falar de inclusão significa discutir oportunidades educacionais, renda, trabalho, mobilidade, autonomia e participação. Para o Brasil, o desafio não termina quando uma porta é aberta: é preciso verificar se o caminho até ela também está acessível e se existem condições para que cada pessoa permaneça naquele espaço com igualdade de oportunidades. A nova publicação do IBGE oferece justamente uma fotografia ampla dessas condições e pode servir de referência para acompanhar mudanças nos próximos anos.

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