K-pop e doramas deixaram de ser apenas entretenimento e passaram a influenciar escolhas, estilos de vida e interesses de brasileiros.
A cultura sul-coreana vive uma nova fase de expansão no Brasil. O que começou para muitos brasileiros com uma música, um grupo de K-pop ou um dorama passou a alcançar áreas muito mais amplas da vida cotidiana, incluindo gastronomia, beleza, moda, tecnologia, turismo e até escolhas profissionais. Uma pesquisa divulgada recentemente voltou a colocar esse fenômeno em evidência ao mostrar como a chamada Onda Coreana, ou Hallyu, influencia hábitos de consumo e desperta curiosidade por outros aspectos da Coreia do Sul. O movimento não acontece apenas entre fãs considerados “de nicho”: trabalhos acadêmicos recentes identificam impactos especialmente entre jovens brasileiros e mostram que a exposição aos produtos culturais pode estimular novas formas de consumo. (Roraima em Tempo) A questão, portanto, vai além de descobrir por que os brasileiros gostam tanto de K-pop e doramas: é entender como uma cultura estrangeira conseguiu entrar no cotidiano e modificar interesses de tanta gente.
Como K-pop e doramas deixaram de ser um nicho no Brasil
Durante muito tempo, consumir cultura sul-coreana no Brasil significava fazer parte de comunidades relativamente específicas. Fãs de K-pop, doramas e cultura asiática encontravam-se principalmente na internet, em fóruns, redes sociais e eventos de cultura pop. Esse cenário mudou com a popularização das plataformas de streaming e das redes sociais, que reduziram a distância entre produções coreanas e o público brasileiro. Estudos recentes sobre a Hallyu no país apontam justamente que o consumo deixou de ficar restrito ao entretenimento e passou a alcançar diferentes dimensões do comportamento, especialmente entre os jovens. (Repositório IDP)
A força desse fenômeno está também na maneira como a cultura coreana chega ao público. Uma pessoa pode descobrir um grupo musical pelo TikTok, começar a assistir a um dorama recomendado por amigos e, depois, procurar restaurantes coreanos, produtos de beleza ou informações sobre viagens para a Coreia do Sul. Esse percurso transforma o fã em consumidor de experiências diferentes, sem que necessariamente exista uma estratégia consciente por trás de cada escolha. Uma pesquisa brasileira sobre o consumo da cultura sul-coreana identificou justamente esse efeito de expansão: o contato inicial com conteúdos da Hallyu pode estimular o interesse por outros produtos e manifestações culturais do país. (ResearchGate)
A presença do fenômeno também pode ser observada no espaço cultural brasileiro. Em maio, a Virada Cultural de São Paulo recebeu pela primeira vez um show de K-pop em sua programação, com a estreia brasileira do grupo 1VERSE em apresentações gratuitas. (Prefeitura de São Paulo) Em julho e agosto, o Centro Cultural São Paulo também recebeu uma mostra dedicada ao cinema coreano, com dezenas de filmes e participação de cineastas, reforçando a aproximação entre as duas culturas. (Prefeitura de São Paulo) Esses movimentos mostram que a cultura sul-coreana já não depende exclusivamente das comunidades de fãs para encontrar espaço no Brasil.
Por que a cultura coreana influencia tanto os hábitos dos brasileiros
Um dos fatores mais importantes é que a Hallyu não oferece apenas produtos culturais isolados. Música, séries, cinema, gastronomia, beleza, moda e tecnologia aparecem conectados e criam uma experiência cultural mais ampla. Pesquisas brasileiras sobre o fenômeno identificam justamente essa capacidade de atravessar diferentes categorias de consumo, enquanto um estudo publicado em 2026 sobre K-Beauty mostrou como marcas sul-coreanas utilizam estética, inovação, cuidado preventivo e referências da cultura pop para dialogar com a Geração Z brasileira. (Periódicos UFPE)
Isso ajuda a explicar uma cena cada vez mais comum: alguém começa assistindo a um dorama e termina pesquisando como preparar uma receita coreana, comprando um cosmético importado ou procurando aulas de coreano. O interesse não precisa ser integral para produzir influência. Basta que determinado elemento desperte curiosidade e seja facilmente encontrado nas redes sociais, em plataformas de comércio eletrônico ou em espaços culturais brasileiros. A própria pesquisa acadêmica sobre comportamento de consumo destaca que a Hallyu pode provocar mudanças em hábitos, interesses e escolhas cotidianas, embora os estudos disponíveis tenham diferentes metodologias e alcances. (Repositório IDP)
Existe ainda uma característica particularmente poderosa nessa relação: identificação. Embora os cenários, idiomas e costumes sejam diferentes, muitos K-dramas trabalham com temas universais, como família, amizade, romance, trabalho, juventude, conflitos pessoais e busca por pertencimento. Uma análise sobre a expansão dos doramas no Brasil destaca justamente essa combinação entre especificidade cultural e histórias capazes de dialogar com experiências reconhecíveis pelo público brasileiro. (Jornal Brasília) A diferença cultural, nesse sentido, não funciona necessariamente como barreira; pode ser justamente o elemento que desperta curiosidade e convida o espectador a conhecer mais.
Esse processo também beneficia a economia criativa. Quando uma obra cultural conquista público fora de seu país, ela cria oportunidades para música, audiovisual, gastronomia, turismo, moda e produtos relacionados. O Brasil, por sua vez, apresenta características especialmente favoráveis à circulação desse conteúdo, com uma comunidade de fãs ativa e uma grande população conectada. O IBGE aponta que 93,6% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet em 2024, enquanto 88,9% da população de 10 anos ou mais possuía celular para uso pessoal. (Agência de Notícias IBGE) Essa infraestrutura ajuda a explicar como tendências culturais conseguem se espalhar rapidamente pelo país.
O que a onda coreana revela sobre a nova identidade cultural brasileira
O crescimento da Hallyu não significa que brasileiros estejam simplesmente abandonando referências nacionais para adotar uma cultura estrangeira. O fenômeno é mais interessante do que isso. Na prática, jovens e adultos combinam referências: podem ouvir K-pop e sertanejo, assistir a doramas e novelas brasileiras, comer comida coreana e continuar valorizando pratos regionais. A cultura contemporânea funciona cada vez mais dessa maneira, com identidades formadas por diferentes influências que circulam simultaneamente pelas telas e pelos espaços físicos. Estudos sobre a Hallyu no Brasil apontam justamente sua capacidade de participar da construção de identidades e comunidades entre consumidores brasileiros. (Repositório UFPE)
Esse intercâmbio também produz efeitos sobre a maneira como o Brasil se relaciona com outras culturas. O país possui uma comunidade coreana importante e mantém cooperação institucional com a Coreia do Sul. Em 2024, os dois países assinaram um memorando de entendimento sobre cooperação cultural com vigência de cinco anos, criando uma estrutura oficial para ampliar iniciativas nessa área. (Serviços e Informações do Brasil) O interesse popular, portanto, encontra uma relação diplomática e cultural que pode favorecer novos eventos, projetos, intercâmbios e circulação de artistas.
Para os brasileiros, a principal mudança talvez esteja na transformação da curiosidade em participação. O fã não quer apenas assistir: quer conversar sobre a produção, aprender palavras do idioma, experimentar comidas, acompanhar lançamentos, participar de eventos e encontrar outras pessoas com interesses semelhantes. Essa dimensão comunitária é particularmente importante entre jovens, para quem redes sociais funcionam não somente como canais de informação, mas também como espaços de pertencimento. A Hallyu consegue aproveitar esse comportamento ao transformar cada novo conteúdo em uma porta para outro segmento cultural.
O cenário indica que a influência sul-coreana ainda pode crescer no Brasil, mas seu impacto não precisa ser medido apenas pelo número de músicas reproduzidas ou séries assistidas. A questão mais profunda é a capacidade de uma manifestação cultural estrangeira despertar curiosidade suficiente para entrar na rotina das pessoas. Quando uma música leva alguém a conhecer uma língua, uma série conduz à gastronomia e um grupo musical aproxima comunidades de fãs, o entretenimento passa a desempenhar um papel social muito maior. A onda coreana mostra, assim, que o brasileiro está cada vez mais aberto a combinar referências globais com sua própria identidade, transformando o consumo cultural em uma experiência de descoberta e pertencimento.
