Conforme aponta o engenheiro Odair José Mannrich, fundador da Versa Engenharia Ambiental, enterrar lixo nunca foi uma solução, apenas um adiamento. Durante décadas, o aterro sanitário foi tratado no Brasil como destino final dos resíduos urbanos, quando, na prática, representa apenas uma pausa no problema. Neste artigo, o tema é exatamente esse ponto de inflexão: o momento em que essa lógica começou a ser questionada e o que está surgindo para substituí-la. Leia até o fim para saber mais.
Aterro sanitário não é sinônimo de solução
Existe uma confusão comum entre aterro sanitário e lixão. O primeiro é uma estrutura controlada, com impermeabilização do solo, sistema de drenagem de chorume e captação de gases. O segundo é, basicamente, descarte a céu aberto. A diferença técnica é enorme, mas o resultado final, em ambos os casos, ainda é o mesmo: resíduos acumulados, ocupando espaço, liberando metano e demandando monitoramento por décadas após o encerramento.
O Brasil avançou na eliminação dos lixões, mas o avanço foi desigual. E dentre este panorama, os municípios de maior porte saíram na frente; já as cidades menores, com menos recursos e menos capacidade técnica, seguem operando estruturas irregulares ou dependendo de consórcios regionais que nem sempre funcionam como deveriam. O mapa do descarte inadequado no país ainda é extenso.
O que mudou na forma de pensar os resíduos?
A virada conceitual mais importante das últimas décadas foi simples: o resíduo passou a ser visto como recurso. Segundo Odair José Mannrich, essa mudança de perspectiva abriu espaço para um conjunto de abordagens que vão muito além do descarte, seja ele controlado ou não.
A compostagem de resíduos orgânicos, a digestão anaeróbia para geração de biogás, o coprocessamento em fornos de cimento, a reciclagem ampliada e a recuperação energética por diferentes vias tecnológicas passaram a compor um leque de alternativas que, combinadas, conseguem reduzir drasticamente o volume de material que precisa ser aterrado. Em países que levaram essa lógica a sério, a destinação em aterros caiu para menos de 10% do total gerado. No Brasil, esse percentual ainda está invertido. A maior parte dos resíduos gerados vai para aterros, com aproveitamento marginal do potencial que carrega.
Onde entra a engenharia nessa equação?
Transformar resíduo em recurso não é apenas uma decisão política ou ambiental. É, antes de tudo, um problema de engenharia. Cada tecnologia alternativa exige projeto, dimensionamento, operação especializada e manutenção contínua. A escolha entre gaseificação, pirólise, digestão anaeróbia ou compostagem depende do perfil dos resíduos gerados, da escala municipal, da disponibilidade de energia e da infraestrutura logística existente.

Na visão de profissionais como o engenheiro Odair José Mannrich, cada município exige uma solução própria. Copiar modelos sem adaptação técnica é um dos erros mais recorrentes em projetos que fracassam ainda na fase de implantação. A personalização do projeto é, portanto, parte indispensável de qualquer estratégia que pretenda funcionar na prática.
Consórcios intermunicipais: uma saída subutilizada
Uma das respostas mais eficientes para municípios pequenos e médios é a formação de consórcios intermunicipais de resíduos. A lógica é direta: sozinhos, esses municípios não têm escala suficiente para viabilizar tecnologias mais sofisticadas. Unidos, conseguem justificar investimentos maiores, compartilhar infraestrutura e reduzir custos operacionais.
A legislação brasileira já prevê e incentiva esse modelo, mas sua adoção ainda é tímida. Barreiras políticas entre municípios vizinhos, disputas por protagonismo e dificuldades de governança compartilhada travam acordos que seriam tecnicamente simples de executar. Assim, superar essas barreiras exige articulação política tanto quanto competência técnica.
Biorreatores e aterros de nova geração
Mesmo dentro do universo dos aterros, a tecnologia evoluiu. Os chamados biorreatores sanitários representam uma geração mais avançada de disposição controlada, dado que, ao invés de apenas conter os resíduos, aceleram ativamente sua decomposição, aumentam a captação de biogás e reduzem o tempo de monitoramento pós-encerramento.
Conforme destaca o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, essas estruturas ainda são raras no Brasil, mas começam a aparecer em projetos de maior porte como alternativa intermediária entre o aterro convencional e as tecnologias de recuperação energética mais avançadas. São, em essência, uma ponte entre o modelo atual e o futuro que o setor precisa construir.
Responsabilidade compartilhada e o papel do setor privado
A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabeleceu o princípio da responsabilidade compartilhada: fabricantes, distribuidores, comerciantes, consumidores e titulares dos serviços públicos de limpeza urbana têm obrigações legais sobre o ciclo de vida dos produtos. Na prática, contudo, a aplicação desse princípio ainda é fragmentada.
A logística reversa, que deveria funcionar como instrumento central dessa responsabilidade, avança em alguns setores, como embalagens e eletrônicos, e patina em outros. O resultado é um sistema que depende excessivamente da coleta pública e deixa o produtor original do resíduo com pouca responsabilidade efetiva sobre seu destino.
O futuro da gestão de resíduos já está sendo construído agora
A transição para um modelo de gestão de resíduos mais eficiente, mais limpo e menos dependente de aterros não é uma perspectiva distante. É um processo em curso, com exemplos funcionando em diferentes partes do mundo e com tecnologia disponível para replicação. O que define o ritmo dessa transição no Brasil é, fundamentalmente, a capacidade de traduzir intenção em execução.
Para o engenheiro Odair José Mannrich, esse gap entre o que se planeja e o que se entrega é o nó central do setor. Obras de infraestrutura ambiental exigem continuidade, especialização técnica e gestão rigorosa, três elementos que precisam andar juntos para que qualquer modelo alternativo ao aterro convencional tenha chance real de funcionar em território brasileiro.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
