Pesquisa ouviu famílias e profissionais em três cidades brasileiras e identificou crenças, sobrecarga e falta de apoio como fatores ligados ao castigo corporal.
Um novo estudo do UNICEF colocou uma questão delicada da vida familiar brasileira no centro do debate: por que a palmada ainda é vista por parte dos adultos como uma forma de educar crianças? Divulgada nesta semana, a pesquisa qualitativa ouviu 214 mães, pais, cuidadores, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção em territórios do Rio de Janeiro, Manaus e Recife. O levantamento procurou entender não apenas a ocorrência da violência física, mas as crenças e circunstâncias que ajudam a mantê-la presente no cotidiano.
O estudo encontrou uma contradição importante. Ao mesmo tempo em que muitos participantes demonstraram reconhecer que bater não é uma boa forma de educar e relataram arrependimento depois de episódios de agressão, ainda existem crenças de que uma palmada pode ser uma maneira legítima de impor limites. A pesquisa também aponta que famílias querem aprender alternativas, mas nem sempre encontram orientação prática ou apoio suficiente para enfrentar situações de estresse e conflito.
Por que a palmada ainda é vista como uma forma de educação?
Uma das principais descobertas do estudo está justamente na diferença entre a maneira como algumas famílias definem violência e a forma como interpretam determinados castigos. Segundo o UNICEF, entre os participantes apareceu com frequência a ideia de que bater “leve” seria diferente de uma agressão grave. Nesse entendimento, a palmada ou outro castigo físico poderia ser tratado como correção, disciplina ou imposição de limites, enquanto somente atos considerados mais severos seriam reconhecidos como violência.
Essa percepção não aparece isoladamente. O levantamento identificou também a crença de que a criação dos filhos pertence exclusivamente à família, o que pode fazer com que vizinhos, parentes e outras pessoas evitem interferir mesmo quando percebem situações preocupantes. Em comunidades afetadas pela violência armada, o estudo encontrou ainda relatos de adultos que associam uma educação mais rígida à tentativa de proteger crianças de riscos externos. Ou seja, em alguns contextos, a violência física pode ser interpretada pelo cuidador como uma ferramenta de proteção, embora o resultado continue sendo a utilização da força contra a criança.
O dado mais importante talvez esteja na existência de sinais de mudança. O UNICEF relata que muitos participantes, especialmente mães mais jovens, disseram se arrepender depois de episódios de agressão e demonstraram vontade de construir relações baseadas no diálogo. Isso mostra que a discussão não se resume a separar famílias entre aquelas que “sabem” e aquelas que “não sabem” educar. Há pessoas que desejam mudar sua maneira de agir, mas enfrentam dificuldades concretas para transformar esse desejo em comportamento cotidiano.
A pesquisa, entretanto, tem uma limitação que precisa ser considerada: por ser qualitativa e ter sido realizada em territórios específicos de três cidades, ela não representa estatisticamente toda a população brasileira. Seu objetivo é diferente, pois procura compreender crenças, emoções, relações sociais e condições que ajudam a explicar a permanência do castigo corporal. Essa distinção é importante para que os resultados sejam utilizados como evidência sobre experiências e padrões observados nos territórios estudados, e não como uma estimativa nacional da quantidade de famílias que recorrem à palmada.
Como o estresse e a sobrecarga influenciam a rotina das famílias?
Outro ponto levantado pelo estudo é a sobrecarga relacionada ao cuidado. O UNICEF identificou que grande parte das responsabilidades parentais ainda recai sobre as mães, fazendo com que cansaço, pressão econômica e estresse cotidiano possam se somar aos desafios comuns da criação de uma criança. Situações como birras, desobediência e dificuldades de comportamento podem se tornar mais difíceis de administrar quando o adulto já está emocionalmente esgotado e não dispõe de uma rede de apoio suficiente.
Isso ajuda a entender por que campanhas de conscientização que apenas dizem o que não deve ser feito podem ter alcance limitado. O estudo aponta que participantes conheciam pouco algumas iniciativas existentes ou consideravam as mensagens distantes da realidade enfrentada dentro de casa. Para uma família que precisa lidar diariamente com conflitos, por exemplo, dizer apenas que não se deve bater não necessariamente ensina como estabelecer limites, interromper uma situação de tensão ou lidar com uma criança em crise. O desafio, segundo o levantamento, é oferecer caminhos concretos para que a educação sem violência seja possível no cotidiano.
A dimensão do problema também aparece em registros de violência contra crianças e adolescentes. O UNICEF cita dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública segundo os quais mais de 60 mil casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes foram registrados em 2025, um aumento de 106% em relação ao ano anterior. Esses registros não podem ser usados para afirmar que todos os casos têm relação com castigos considerados “leves”, pois abrangem situações de violência de natureza diversa. Eles, porém, ajudam a dimensionar a necessidade de prevenção e proteção na infância.
O estudo também chama atenção para o papel dos serviços públicos. Profissionais entrevistados relataram dificuldades relacionadas à capacitação para orientar famílias sobre formas de educar sem violência, enquanto a pesquisa identificou obstáculos para que o apoio chegue antes de uma situação familiar se transformar em agressão. Essa mudança de lógica — sair de uma atuação predominantemente posterior ao episódio e fortalecer a prevenção — aparece entre as recomendações apresentadas pelo UNICEF.
A discussão também pode ser relacionada a dados mais amplos sobre a experiência de crianças e adolescentes no país. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do IBGE, investigou diferentes dimensões da vida de estudantes de 13 a 17 anos, incluindo violência, saúde mental, imagem corporal e situações vivenciadas em casa e na escola. O levantamento mostra como fatores familiares, escolares e sociais fazem parte de um conjunto amplo de experiências que influenciam o desenvolvimento durante a adolescência.
O que pode mudar na relação entre pais, filhos e comunidade?
A pesquisa do UNICEF coloca a parentalidade protetiva como uma das possíveis respostas ao problema. Na prática, isso significa fortalecer formas de cuidado que estabeleçam limites sem recorrer à violência e criar condições para que mães, pais e outros cuidadores tenham acesso a informação e apoio. O estudo recomenda, entre outras medidas, capacitação continuada dos profissionais que atendem famílias, campanhas que expliquem alternativas práticas e ações capazes de mobilizar homens para ampliar sua participação no cuidado das crianças.
Essa última questão é particularmente relevante porque a divisão do trabalho de cuidado interfere diretamente na rotina doméstica. Quando uma única pessoa concentra grande parte das responsabilidades, situações comuns da infância podem se transformar em fontes adicionais de exaustão. Criar redes de apoio, dividir responsabilidades e permitir que famílias procurem orientação antes de uma crise são estratégias que podem atuar sobre as condições que favorecem respostas violentas, sem transformar a responsabilidade pela proteção da criança em uma tarefa exclusivamente individual.
A comunidade também aparece nesse debate. O estudo identificou que a ideia de que “cada família cria seus filhos do seu jeito” pode dificultar intervenções quando alguém percebe uma situação de violência. Ao mesmo tempo, qualquer abordagem precisa considerar segurança, contexto e os canais adequados de proteção, evitando que a preocupação com uma criança resulte em confronto improvisado ou coloque alguém em risco. O ponto central é compreender que a proteção da infância envolve família, comunidade e serviços públicos, cada qual com responsabilidades diferentes.
O levantamento deixa, assim, uma questão que ultrapassa a discussão sobre a palmada: que condições uma família precisa ter para conseguir educar sem violência? A resposta não depende somente de conhecimento sobre desenvolvimento infantil, mas também de tempo, apoio, orientação, serviços acessíveis e redes capazes de reduzir a sobrecarga. O próprio estudo ressalta que muitas famílias querem mudar e precisam de ferramentas para transformar essa intenção em prática.
A pesquisa divulgada nesta semana não oferece uma fotografia estatística de todas as famílias brasileiras, mas ajuda a iluminar um comportamento que continua sendo discutido dentro e fora de casa. Ao ouvir diretamente cuidadores e profissionais, o estudo mostra que mudar a cultura da violência exige mais do que condenar uma prática: é preciso entender por que ela persiste e oferecer alternativas possíveis. Para pais, mães e responsáveis, a mensagem mais concreta é que procurar informação e apoio faz parte do cuidado. Para a sociedade, o desafio é construir uma rede em que educar, impor limites e proteger crianças não dependa do uso da força.
