Poucas discussões ganharam tanto espaço quanto a herança de Sigmund Freud, e Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista, observa que a psicanálise segue como uma das chaves mais consistentes para compreender o ambiente familiar e seus efeitos duradouros sobre a saúde mental. Criada na Viena do fim do século XIX, a teoria freudiana deslocou o olhar da doença para a história de cada pessoa, com atenção especial às experiências da infância. Ao longo de mais de um século, seus conceitos foram revistos, criticados e ampliados, mas continuam orientando a escuta clínica de quem busca entender vínculos e cuidar da saúde mental familiar.
Por que Freud voltou o olhar para a infância?
Nos primeiros trabalhos, desenvolvidos com o médico Josef Breuer e reunidos nos Estudos sobre a histeria, de 1895, Freud percebeu que sintomas físicos e emocionais muitas vezes estavam ligados a lembranças que a pessoa não conseguia acessar. Ao abandonar a hipnose e adotar a associação livre, método em que o paciente fala sem censura, ele passou a reconhecer que experiências precoces, mesmo esquecidas, seguem produzindo efeitos. Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, descreveu o desenvolvimento psíquico da criança como um processo atravessado pelos vínculos com quem cuida dela.
Conforme explica Taiza Tosatt Eleoterio, a ideia de que o passado permanece ativo no presente permite entender por que o ambiente familiar deixa marcas duradouras, tanto quando acolhe quanto quando fere. Na infância, a criança depende dos adultos para nomear o que sente, para se sentir segura e para dar sentido ao que acontece ao seu redor. Em lares atravessados por conflito ou violência, o sofrimento pode assumir formas indiretas, como retraimento, irritação ou dificuldades na escola, e o olhar psicanalítico procura escutar o sentido desses sinais sem apressar rótulos.
Compulsão à repetição e dependência emocional nas relações
Outro conceito freudiano de grande alcance é a compulsão à repetição, formulada em textos das décadas de 1910 e 1920, como Além do princípio do prazer. Freud notou que as pessoas tendem a reencenar, sem perceber, situações de sua própria história, mesmo quando foram dolorosas. Na visão de Taiza Tosatt Eleoterio, essa chave de leitura é útil para conversar sobre dependência emocional, porque permite compreender que certos vínculos podem se repetir a partir de modelos aprendidos muito cedo, e não por falta de força ou de inteligência de quem os vive.
Contudo, a repetição não deve ser confundida com escolha nem com culpa. No caso de um relacionamento abusivo, fatores como medo, vergonha, isolamento e dependência financeira pesam de maneira decisiva, e a psicanálise não pretende explicar tudo por meio da história infantil. O que ela oferece é um espaço de escuta em que a pessoa pode reconhecer padrões, dar nome ao que viveu e construir, no seu tempo, novas possibilidades de vínculo, sem julgamento e sem pressa. Reconhecer um padrão é apenas o primeiro passo, e não uma exigência de mudança imediata.
Elaboração do trauma na infância e o valor da palavra
Para a teoria freudiana, o trauma na infância não se resume ao acontecimento em si, mas ao modo como ele foi vivido e à ausência de alguém que ajudasse a compreendê-lo. Por isso Freud deu tanta importância à elaboração, processo em que a pessoa retoma lembranças e afetos por meio da fala até que percam parte de sua intensidade. Taiza Tosatt Eleoterio sublinha que esse trabalho pede tempo, vínculo de confiança e respeito ao ritmo de cada história, especialmente quando há histórico de violência, situação em que o cuidado para não expor a pessoa a lembranças antes da hora se torna ainda mais importante.
Como salienta Taiza Tosatt Eleoterio, o acompanhamento psicanalítico ganha força quando caminha ao lado de outras formas de cuidado, como o apoio da família, o acolhimento social e a orientação de serviços de assistência e de saúde. Nas situações de crise familiar, a fala na análise não substitui medidas de proteção, mas sustenta quem precisa atravessá-las com mais firmeza e menos solidão. Assim, a herança freudiana permanece atual não por oferecer respostas prontas, e sim por lembrar que o sofrimento pede escuta e que ninguém precisa elaborá-lo sozinho.
