Pesquisa revela distância entre universidades e empresas e mostra que jovens já usam IA por conta própria para enfrentar novas exigências profissionais.
A inteligência artificial já faz parte da rotina de estudantes brasileiros, mas uma parcela significativa ainda não se sente preparada para lidar com ela no mercado de trabalho. Uma pesquisa da Pearson em parceria com a Amazon Web Services (AWS), divulgada nesta semana, mostra que apenas 52% dos universitários brasileiros consideram que recebem preparo adequado ou razoável das instituições de ensino para atuar em um ambiente profissional influenciado pela IA. O índice fica abaixo da média de 61% registrada nos seis países analisados pelo levantamento.
O cenário chama atenção porque a tecnologia avança justamente enquanto milhares de jovens se preparam para entrar ou permanecer em uma realidade profissional que já está mudando. A pesquisa mostra ainda que somente 47% dos graduandos estão satisfeitos com a quantidade de conteúdos sobre inteligência artificial presentes em seus currículos. A dúvida que surge é inevitável: as universidades brasileiras estão conseguindo acompanhar a velocidade das transformações provocadas pela IA?
Por que os universitários brasileiros não se sentem preparados para a IA?
A percepção dos estudantes revela uma diferença entre a velocidade com que a inteligência artificial chegou ao cotidiano e o ritmo de adaptação das instituições de ensino. O levantamento ouviu 350 estudantes de graduação, além de 100 líderes do ensino superior e 50 empregadores no Brasil, entre 7 e 28 de janeiro de 2026. Entre os universitários, apenas 52% disseram estar bem ou razoavelmente preparados pela universidade para um mercado baseado em IA, enquanto 47% afirmaram estar satisfeitos com a presença desse conteúdo nos currículos.
O dado mais interessante é que a falta de conteúdo institucional não significa falta de contato com a tecnologia. Entre 55% e 66% dos estudantes afirmaram recorrer a ferramentas de inteligência artificial que não foram aprovadas ou disponibilizadas pelas próprias instituições. Isso sugere que muitos jovens estão aprendendo sozinhos, por necessidade ou iniciativa própria, enquanto ainda esperam que a universidade ofereça orientação mais estruturada. A situação cria um paradoxo: a IA já está sendo utilizada para estudar, pesquisar, escrever e resolver problemas, mas parte dos estudantes ainda não sabe exatamente quais são os limites, riscos e melhores formas de utilizar esses recursos.
Essa dificuldade não é exclusiva do ensino superior. O Cetic.br já havia identificado uma forte presença da IA entre estudantes brasileiros, especialmente no ensino médio, mostrando que 70% dos alunos conectados utilizavam ferramentas de IA generativa para realizar pesquisas escolares. A diferença agora é que o impacto começa a ser medido também sob a perspectiva da empregabilidade, colocando a formação universitária diante de uma pressão maior para preparar pessoas capazes de trabalhar com tecnologia sem abandonar competências essencialmente humanas.
O que as empresas estão procurando nos jovens que chegam ao mercado?
Do lado das empresas, a inteligência artificial já aparece como uma competência importante na contratação de recém-formados. Segundo a pesquisa Pearson e AWS, 44% dos empregadores brasileiros consideram a capacidade de utilizar ferramentas de IA uma prioridade na escolha de novos profissionais, enquanto outros 44% dão importância à compreensão dos riscos e limitações dessas tecnologias. A segunda informação é especialmente relevante porque mostra que saber abrir uma ferramenta de IA não é suficiente para atender às expectativas do mercado. As empresas procuram profissionais capazes de avaliar respostas, identificar erros, proteger informações e decidir quando uma solução automatizada deve ou não ser utilizada.
Essa mudança ajuda a explicar por que a formação profissional está deixando de ser uma questão puramente técnica. O trabalhador que consegue combinar conhecimento de sua área com capacidade de utilizar IA pode ganhar produtividade, mas precisa manter pensamento crítico, comunicação e responsabilidade para evitar que a tecnologia substitua seu próprio julgamento. Na pesquisa, 38% dos empregadores brasileiros também apontaram adaptabilidade, comunicação e colaboração como prioridades na contratação. A mensagem para quem está na universidade é clara: o futuro profissional não depende apenas de dominar ferramentas digitais, mas de saber trabalhar com elas sem abrir mão da capacidade de interpretar situações complexas.
Há também um obstáculo concreto entre aquilo que o estudante aprende e aquilo que as empresas esperam encontrar. Para 42% dos empregadores brasileiros ouvidos, a distância entre o conhecimento acadêmico e sua aplicação em situações reais representa uma barreira para a contratação de recém-formados. Ao mesmo tempo, 54% das empresas consideram que os jovens que chegam hoje ao mercado estão mais preparados do que aqueles contratados cinco anos atrás. A contradição mostra que existe evolução, mas ela acontece em velocidade diferente da transformação tecnológica.
Como a inteligência artificial pode mudar a experiência dos estudantes?
A chegada da IA às universidades também pode modificar a maneira como os jovens estudam e constroem conhecimento. Uma ferramenta capaz de explicar um conceito, resumir um texto, sugerir caminhos para uma pesquisa ou auxiliar na programação pode funcionar como apoio importante para quem encontra dificuldades em determinada disciplina. O problema aparece quando a tecnologia passa de instrumento de aprendizagem para substituta do esforço intelectual. Se o estudante simplesmente aceita uma resposta pronta sem conferir fontes, compreender o raciocínio ou desenvolver sua própria argumentação, o ganho imediato pode esconder uma perda de aprendizado no longo prazo.
Por isso, o desafio das universidades não deveria ser simplesmente proibir ou liberar ferramentas de inteligência artificial. O avanço da tecnologia exige ensinar os estudantes a utilizá-la com critérios, transparência e responsabilidade. O próprio Cetic.br destaca a necessidade de formação e de diretrizes para que alunos e professores consigam aproveitar as oportunidades da IA sem ignorar seus riscos. Essa mudança pode incluir atividades em que o estudante precise verificar respostas produzidas por sistemas, comparar diferentes fontes, identificar informações inventadas e explicar quais decisões foram tomadas durante o uso da ferramenta.
O impacto também alcança professores, cursos e profissões que tradicionalmente não eram associados à tecnologia. Direito, jornalismo, administração, comunicação, engenharia, saúde, educação e diversas outras áreas já convivem com sistemas capazes de produzir textos, analisar informações ou automatizar tarefas. Isso não significa que todas as profissões desaparecerão, mas indica que muitas funções serão reorganizadas. Para os jovens, aprender continuamente tende a se tornar tão importante quanto conquistar um diploma, porque as ferramentas utilizadas no início de uma carreira podem ser muito diferentes daquelas disponíveis alguns anos depois.
A pesquisa, portanto, revela uma questão que interessa não apenas às universidades, mas a toda uma geração que está tentando descobrir como será sua vida profissional. Os estudantes brasileiros já estão usando inteligência artificial, enquanto empresas aumentam a expectativa de que novos contratados saibam trabalhar com essa tecnologia. O desafio agora é diminuir a distância entre acesso e preparo, garantindo que a IA seja incorporada à educação sem transformar o aprendizado em simples terceirização do pensamento. Para os jovens, isso significa chegar ao mercado não apenas sabendo usar uma ferramenta, mas entendendo quando confiar nela, quando questioná-la e quando a decisão precisa continuar sendo humana.
