IA e vídeos falsos mudam o desafio da internet no Brasil: o que a tecnologia já está fazendo com a informação

Marcel Montaire
Por Marcel Montaire
8 Min de leitura

Novas ferramentas de inteligência artificial tornam conteúdos sintéticos mais convincentes e aumentam a necessidade de verificar informações antes de compartilhá-las.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta associada ao trabalho, à criação de imagens ou aos assistentes virtuais e passou a ocupar um espaço cada vez maior na forma como os brasileiros consomem informação. Um novo guia divulgado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) nesta semana chama atenção para uma transformação importante: vídeos falsos produzidos com IA e conteúdos de baixa qualidade passaram a representar uma preocupação central para o ambiente digital durante o ciclo eleitoral de 2026.

O assunto interessa mesmo a quem não acompanha política, porque a tecnologia utilizada para criar um vídeo sintético também pode aparecer em golpes, publicidade enganosa, perfis falsos e conteúdos virais. A pergunta que surge é simples: como saber se aquilo que aparece na tela realmente aconteceu? A resposta passa menos por uma ferramenta específica e mais por novos hábitos de consumo de informação, especialmente em aplicativos de mensagens e redes sociais.

Por que os vídeos criados por inteligência artificial preocupam?

O avanço dos sistemas generativos tornou mais simples produzir imagens, áudios e vídeos que imitam pessoas reais ou simulam acontecimentos. O guia Internet, Democracia e Eleições, publicado pelo CGI.br em 22 de setembro, aponta que os vídeos falsos criados por inteligência artificial e a informação de baixa qualidade assumiram uma posição central entre os riscos digitais observados no atual ciclo eleitoral.

A mudança não está apenas na capacidade técnica de produzir uma falsificação, mas também na velocidade com que ela pode circular. Segundo o guia citado pela Agência Brasil, enquanto em 2018 as redes abertas tinham papel importante na distribuição de conteúdos políticos, atualmente ambientes mais restritos, como o WhatsApp, ganharam destaque na circulação de informações. Isso torna a identificação de um conteúdo enganoso mais difícil, porque uma pessoa pode receber um vídeo diretamente de alguém conhecido e atribuir credibilidade à mensagem antes de verificar sua origem.

O problema também ultrapassa o universo eleitoral. A mesma tecnologia pode ser utilizada para criar falsificações envolvendo celebridades, empresas, familiares ou acontecimentos cotidianos. Para o usuário comum, isso significa que aparência, voz e qualidade da edição deixaram de ser suficientes para determinar se um conteúdo é verdadeiro.

Como a inteligência artificial está mudando a relação das pessoas com a informação?

A expansão da IA acontece ao mesmo tempo em que o acesso à internet se tornou parte da rotina da maioria dos brasileiros. Segundo dados do IBGE, a internet já era utilizada em 92,5% dos domicílios brasileiros em 2023, alcançando 72,5 milhões de residências. Embora esse dado seja anterior ao cenário atual da inteligência artificial generativa, ele ajuda a dimensionar o tamanho do público potencialmente exposto a conteúdos produzidos e distribuídos digitalmente.

Isso cria uma situação curiosa: quanto mais pessoas estão conectadas, maior é a quantidade de informação disponível, mas também cresce a dificuldade de separar conteúdos confiáveis daqueles produzidos para provocar uma reação. Um vídeo curto, por exemplo, pode parecer uma gravação espontânea quando, na realidade, foi criado ou alterado digitalmente. Uma voz familiar pode transmitir uma mensagem que aquela pessoa nunca pronunciou. Uma imagem aparentemente jornalística pode combinar elementos verdadeiros com informações inventadas.

O próprio debate institucional já acompanha essa mudança. A Anatel mantém uma agenda regulatória relacionada ao uso de inteligência artificial nas telecomunicações, incluindo preocupações com coleta de dados e tomada de decisões baseadas nas informações trafegadas pelas redes. Paralelamente, a agência desenvolve estudos sobre aplicações de IA em áreas como qualidade dos serviços, cibersegurança, monitoramento de redes e fiscalização.

Isso mostra que a tecnologia não está apenas mudando aquilo que as pessoas produzem, mas também a maneira como empresas e instituições precisam lidar com o ambiente digital.

O que o brasileiro pode fazer para não cair em conteúdos falsos?

A primeira mudança é comportamental: não compartilhar imediatamente aquilo que provoca uma reação emocional forte. Surpresa, indignação, medo e entusiasmo são justamente algumas das emoções que podem levar alguém a encaminhar um conteúdo antes de verificar sua origem. Quando um vídeo parece extraordinário, vale procurar a mesma informação em veículos jornalísticos confiáveis, sites oficiais ou fontes diretamente relacionadas ao acontecimento.

Também é importante observar o contexto. Um vídeo verdadeiro pode ser apresentado com uma legenda falsa, uma gravação antiga pode ser divulgada como se fosse atual e uma fala real pode ser retirada de uma situação completamente diferente. Por isso, verificar apenas se as imagens parecem autênticas não basta. É necessário descobrir quando, onde e em que circunstâncias aquele material foi produzido.

A educação digital ganha, nesse cenário, uma importância que vai além do conhecimento técnico. Saber utilizar um celular ou uma rede social não significa necessariamente saber avaliar criticamente aquilo que aparece na tela. O avanço da IA torna essa diferença ainda mais evidente, porque a produção de conteúdos convincentes está cada vez mais acessível.

Para o brasileiro, a principal consequência dessa transformação é que a confiança na informação dependerá cada vez mais de processos de verificação. Isso vale para notícias, ofertas comerciais, mensagens recebidas no WhatsApp, vídeos publicados nas redes e até conteúdos envolvendo pessoas próximas.

A tecnologia continuará avançando e novas ferramentas deverão tornar a produção de imagens, áudios e vídeos sintéticos ainda mais sofisticada. Ao mesmo tempo, instituições, empresas e usuários terão de desenvolver mecanismos para identificar abusos e reduzir os impactos de conteúdos enganosos. O cenário apresentado pelo CGI.br mostra que essa discussão já deixou de ser uma preocupação distante: ela faz parte da experiência digital brasileira de 2026.

Para quem está diante da tela, a regra mais útil é simples: quanto mais surpreendente for um conteúdo, maior deve ser a disposição para verificar antes de acreditar ou compartilhar. Em uma internet onde a inteligência artificial consegue imitar imagens, vozes e situações, informação de qualidade passa a depender não apenas da tecnologia, mas também da atenção de quem recebe cada mensagem.

Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *