Seis em cada dez brasileiros já sentem a inteligência artificial economizando tempo no trabalho

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez
6 Min de leitura

Pesquisa global da Ipsos mostra que brasileiros usam mais IA que a média mundial, mas ainda têm receio sobre o próprio emprego.

A inteligência artificial deixou de ser promessa distante e já aparece no dia a dia de boa parte dos trabalhadores brasileiros. É o que mostra o mais recente levantamento da Ipsos, que ouviu milhares de pessoas em 32 países para entender como a tecnologia está sendo percebida e usada ao redor do mundo. No Brasil, o entusiasmo convive lado a lado com a preocupação sobre o próprio futuro profissional, o que levanta uma pergunta central para quem acompanha o tema: a IA está realmente ajudando o trabalhador brasileiro, ou o medo de perder o emprego pesa mais do que os ganhos de produtividade percebidos até agora?

O que os dados mostram sobre o uso real da IA no trabalho

Segundo o levantamento, 6 em cada 10 trabalhadores brasileiros (59%) afirmam que ferramentas de inteligência artificial economizaram seu tempo no último ano, um número próximo à média global de 62% entre os 32 países pesquisados. O dado indica que a fase inicial de curiosidade em torno da tecnologia já deu lugar a um uso mais prático e cotidiano, especialmente em tarefas repetitivas ou que exigem organização de informação.

Outro ponto relevante da pesquisa é a expectativa em relação ao futuro: 60% dos brasileiros acreditam que a IA vai melhorar o tempo que levam para realizar suas tarefas nos próximos três a cinco anos, enquanto 65% acreditam que a tecnologia vai mudar a forma como trabalham. Esses números mostram que a população não vê a IA apenas como uma novidade passageira, mas como algo que deve se consolidar de forma estrutural na rotina profissional ao longo dos próximos anos, inclusive em setores que ainda usam a tecnologia de forma limitada.

Por que o entusiasmo brasileiro convive com desconfiança sobre o próprio emprego

Apesar do uso intenso, o Brasil está entre os países onde a população é menos propensa a acreditar que a IA traz mais benefícios do que desvantagens. Apenas 56% dos brasileiros concordam que a tecnologia traz mais vantagens do que problemas, uma queda de 2 pontos percentuais em relação ao ano anterior, número inferior ao registrado em países como Estados Unidos e Alemanha, onde a desconfiança em relação à IA costuma ser ainda maior em proporção à população total.

Essa aparente contradição tem explicação: o receio de substituição no emprego é mais forte entre os brasileiros do que na média dos países pesquisados. Um estudo do FGV IBRE reforça essa preocupação ao mostrar que cerca de 20% da população ocupada no Brasil possui alta exposição à inteligência artificial generativa combinada com baixa complementaridade, o que os torna mais vulneráveis à perda do posto de trabalho. Ao mesmo tempo, outra parcela semelhante de trabalhadores tem alta exposição, mas também alta complementaridade com a tecnologia, o que pode significar ganhos de produtividade e até de salário para esse grupo específico.

O que essa divisão de sentimentos revela sobre o momento atual

O cenário brasileiro reflete um paradoxo que também aparece em outras pesquisas recentes sobre o tema: o brasileiro usa mais inteligência artificial no cotidiano do que a média mundial, mas ainda pede mais transparência sobre como a tecnologia vai impactar o mercado de trabalho a médio prazo. Levantamentos anteriores já indicavam que mais da metade da população usa IA para tarefas diárias, indicando adoção mais rápida do que em países com renda per capita mais alta.

Esse comportamento sugere que a relação do brasileiro com a inteligência artificial está amadurecendo em duas velocidades diferentes, uma mais rápida, ligada ao uso prático da ferramenta, e outra mais lenta, relacionada à confiança sobre o impacto de longo prazo no emprego. Para especialistas que acompanham o tema, esse hiato tende a diminuir à medida que políticas públicas e empresas oferecerem mais clareza sobre requalificação profissional e uso responsável da tecnologia.

O retrato traçado pela Ipsos em 2026 confirma que a inteligência artificial já faz parte da rotina de trabalho de milhões de brasileiros, mas também escancara uma lacuna importante: a falta de segurança sobre o que vem depois. Enquanto o ganho de produtividade já é sentido no dia a dia, a ausência de políticas claras de transição profissional mantém viva a insegurança de parte da força de trabalho. O desafio dos próximos anos será equilibrar esses dois lados, aproveitando os ganhos de eficiência sem deixar para trás quem ainda não sabe como a tecnologia vai afetar o próprio emprego.

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